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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Heráclito de Éfeso, o devir eterno que incomoda a nossa alma

Heráclito de Éfeso de Johannes Moreelse
1603-1634
O devir, o movimento que joga tudo para o
futuro que na verdade nunca chega

...nada permanece o mesmo, nem por um instante...


                                                                Devir. A palavra devir significa devenir. Então, devir significa a transformação incessante e permanente pela qual as coisasse constroem e se dissolvem noutras coisas. Também podemos usar a expressão vir-a-ser.

                                                                Heráclito de Éfeso. Este filósofo nasceu em Éfeso na Jônia, 540-480 a.C. É considerado o mais importante dos pré-socráticos, conhecido também como “O Obscuro”. Os seus pensamentos foram expostos através de aforismos, aforismo é uma espécie de ideia condensada em uma frase. Heráclito ficou impressionado com o movimento que criava e destruía simultâneamente em um jogo interminável em que a matéria é o objeto sendo jogado no insensível espaço para o um e depois para o zero, para o sim e o não, em perguntas e respostas misteriosas, incompreensíveis e atordoantes. Assim, sua ideia mestra é o devir eterno, o seu pensamento tem o movimento como chave, não um movimento qualquer mas o eterno movimento. O mundo heraclitiano é um lugar dinâmico, um fluxo de energia, de fogo, uma mudança permanente, acreditando sempre que nada permanece o mesmo, nem por um instante.

...a necessidade de motoristas-filósofos...
                                                                 Caindo no futuro constantemente. Seu pensamento perturba e condena o presente, sempre o devir empurrando para o futuro, para a vida, para a destruição, sempre os opostos vida e morte se cruzando, como se fossem uma unidade mística. Compreendê-lo ajuda-nos a compreender o movimento, o devir e o perigo nas estradas, ninho de movimentos. Quando nos sentimos num devir, num futuro sem fim, ficamos com medo do futuro que parece se confundir apenas com movimento sem sentido. Aí nos sentimos caindo no abismo do tempo e nesta queda o olhar pode dizer que não existe passado, que o presente é brevíssimo e sem sentido, que o futuro é apenas esperança e que ele na verdade nunca chegará pois depois do futuro existe outro futuro num fluxo constante e assim por diante até o fim dos tempos e no fim da vida podemos ficar com a impressão que tudo não passou de um sonho bem sonhado. Assim, o Devir, o futuro, pode ser um ser desabando no futuro.

                                                                   O físico Heráclito de Éfeso. Ele é também um físico e dos bons, sua teoria não está tão desatualizada, ou seja, é um filósofo que estuda, observa e fica deslumbrado com a natureza e em especial com o intrigante movimento que é dialético ou melhor ainda, cria e destrói, por isso o nosso Heráclito é considerado o pai da Dialética ou do diálogo das teses e antíteses. A física hoje é uma ciência independente da filosofia, na antiguidade era um ramo desta. A Física é a ciência que tem por objeto o estudo da natureza, em latim a palavra natureza é Physica. Como disciplina específica nasceu com Aristóteles, 384- 322 a.C., que a chamou de Filosofia Segunda, e possui três conceitos básicos. O primeiro destes conceitos é a noção da física como Teoria do Movimento ou Física Aristotélica, ou seja, física é a ciência que estuda o movimento procurando as explicações deste, neste conceito Deus seria o primeiro movimento e causador dos demais na natureza. A Teoria de Deus Como Primeiro Mobimento é encantadora e tem uma lógica sesquipedal, quando olhamos em nossa volta podemos perceber movimento, transformação por todos os cantos, destarte, esta essência poderia ter um criador, o primeiro movimento, isso nem a física pode deswcartar hoje pelos seus conhecimentos ridículos sobre a matéria, o que conhecemnos sobre a matéria é apenas superficial. Como é impossível provar a existência de Deus ou do mistério que criou os movimentos da natureza este conceito acabou sendo abandonado. O segundo conceito é a teoria da física como ordem necessária ou de causa e efeito e temos Newton como o principal representante. Este conceito matematiza a física e limita-se em descrever os fenômenos. Até hoje fica ressoando em nossas cabeças a fórmula matemática: S= So+V.T.  Com as novas descobertas, principalmente na física quântica, os cientistas perceberam a impossibilidade de descrever todos os fenômenos ou atrás de uma causa existe outra causa e assim por diante. Assim, a física caiu de joelhos e hoje esta ciência a partir de 1930 se limita a previsão dos acontecimentos futuros, graças à qual podemos organizar as nossas ocupações. Em resumo, no início a física era explicativa, tentava explicar a essência do movimento, como viram que isso era impossível uma vez ela teria que provar a existência de um causador do movimento ou de um Deus passaram para a física descritiva dos fenômenos mas com as novas descobertas viram que é impossível descrevê-los todos e hoje, a física se contenta com uma simples previsão falha do futuro. Hoje, estamos na fase da humildade do homem e da física, quanto mais se estuda, menor ficamos no cosmos.

Aristóteles, 384-322
A física como Filosofia Segunda
tentando explicar a essência do
movimento


                                   A 3000.000 mil quilômetros por segundo temos o fogo como resposta. Segundo a física a velocidade limite é de trezentos mil quilômetros por segundo. Recentemente foi divulgada uma pesquisa que os Neutrinos, matéria sub-atômica atingiram mais de trezentos e seis mil quilômetros, nada oficial ainda, se confirmado tudo que estou dizendo se desmoronará, o que me deixaria muito feliz. Nesta velocidade a matéria abalada profundamente pelo movimento, pela velocidade, se transformaria em uma bela energia, contudo, tal velocidade seria quase impossível de se conseguir. Destarte, podemos dizer ainda que Heráclito de Éfeso continua moderno. Ele e Einstein têm mais em comum do que se imaginam. A formula E = M.C² nada mais é que um pensamento sofisticado do que foi imaginado pelo primeiro há mais de dois mil anos atrás. O princípio da filosofia heraclitiana é o fogo místico que cria e destrói e isso dá cientificidade a sua teoria pois a matéria é igual a energia e o fogo é uma espécie de energia.

...se nós podemos prever o futuro, podemos mudá-lo com as nossas meditações...
                                                                    

                                                                  Estradas como ninho de movimento. Destarte, o homem é movimento de vida e de morte, é uma essência do devir heraclitiano. Só que não podemos esquecer que os nossos movimentos se tornaram rápidos demais, parecendo até que não estamos preparados para este movimento. As nossas estradas, exemplificativamente, como ninhos de movimento, por conseguinte, se transformaram em caos onde vidas de animais e pessoas são ceifadas. Por isso a necessidade de pensarmos em Heráclito de Éfeso. Uma corrida de formula um e uma partida de futebol são exemplos de movimentos apolíneos, criados pelos homens e que encantam, assim como as estradas, as quais em razão de potencializar o movimento, trazem vida e morte. Podemos dizer que o movimento é perigoso e misterioso, assim, uma estrada como ninho de movimentos é local de vida e morte, e por isso, urge a necessidade de motoristas-filósofos, assunto que trataremos adiante.

aforismo é uma ideia condensada em uma frase

                                                                   Previsão do observável ou já vi este filme. O terceiro conceito de física tratado acima pode ser resumido como a previsão do observável, como a causa e efeito, quando alguém diz que já viu este filme nada mais está dizendo que tudo era previsível, que não há surpresas, que isto já foi observado. Então, se nas estradas ocorrerem mortes e atropelamentos dos bichos podemos apenas dizer para o interlocutor “eu já sabia”, como se dissesse que você estava brincando com fogo, com o movimento. Se nós podemos prever o futuro, podemos mudá-lo com as nossas meditações. Neste momento, prestem atenção, não houve um encontro entre física e filosofia, duas ciências aparentemente distintas? Assim, não estranhem se um grande físico acabar se tornando um grande filósofo como Einstein e Newton se tornaram. Este fato são favas contadas em razão de nenhuma ciência explicar tudo. Aliás, Einstein passou décadas procurando o Princípio do Tudo ou um princípio ou ideia que explicasse toda a física, não concordava com o princípio da imprevisibilidade e brincava dizendo que Deus não joga dados, não obstante,  não chegou nem perto e atualmente existem muitas teorias, nenhuma é satisfatória, muitas são exóticas e incompreensíveis. A tarefa parece ser impossível, em um momento que a física parece ter se encontrado com a metafísica.

Entre os aforismos de Heráclito temos:

O sol é novo a cada dia.

Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.


...Estão procurando pelo Princípio do Tudo...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Pandora, a mulher de todos os dons e Epimeteu, o que pensa depois

Pandora de John William Waterhouse
1830-1907. Pintor e escritor inglês.
                                                                   
...somos counntdwon, contagem regressiva, e por sermos countdwon, talvez, a maior de todas as esperanças seja a busca da eternidade...


                                                                   Abrindo o vaso de maldades de tampa larga. Digo que se os católicos tem Eva como mulher fatal, os gregos tem Pandora como o equivalente feminino. Pandora, a mulher de todos os dons (Pan: todo, tudo e dora: dons, palavra grega bem como as demais do artigo com exceção de countdown que significa contagem regressiva em inglês) foi encomendada por Zeus a seu filho Hefesto o qual da argila esculpiu a mais formosa das mulheres.

     ...Prometeu, o que pensa antes...                                                                  
                                                                 A vingança de Zeus. Explico que Zeus queria, na verdade, se vingar dos homens, e, em especial de Prometeu e Epimeteu. Certa feita Prometeu filho de Jápeto e da ninfa Clímene, abateu um imenso boi e, desejando beneficiar os homens, dividiu-o em duas porções, na primeira colocou as carnes e entranhas e o encobriu com o couro do animal, na outra colocou os ossos encobertos pela gordura. Zeus escolheu este último, ao descobrir a falcatrua ficou irritadíssimo com Prometeu e como vingança privou os homens do fogo, que simbolicamente é a inteligência, transformando-os em idiotas. Inteligência em grego é nous, nûs. Ao depois, Prometeu roubou a centelha divina devolvendo a inteligência aos homens. Em razão disso, os deuses decidiram punir todos com rigor, Prometeu foi acorrentado no Cáucaso, onde uma águia devorava o seu fígado diariamente, o qual se recompunha à noite. Aos homens foi enviada Pandora, a mulher que espalharia pelo paraíso todos os males, principalmente, a violência ou hýbris, uma espécie de injustiça. O interessante é que  o fígado tem um imenso poder de regenerar, ou seja, o mito é baseado em uma verdade biológica. Os homens recuperaram a malícia, a inteligência, mas perderam o paraíso e passaram a ter de trabalhar para sua sobrevivência. Hesíodo explica isso em sua obra O trabalho e os Dias:

                                                                   A miséria pode ser alcançada , tanto quanto se quer, e sem fadiga: a estrada é plana e ela se aloja muito perto de nós.

                                                                    Os deuses imortais, todavia, exigiram o suor para se conquistar o mérito.

Prometeu de Heinrich
fuger, 1751-1818,
 entrega o fogo
celeste aos homens.

                                                                 A mulher de todos os dons.   De diversos deuses Pandora recebeu muitos dons e foi enviada como esposa de Epimeteu, o Adão grego. Exemplificativamente, de Como presente de núpcias a nossa Pandora trouxe um vaso de tampa larga, oferecido por Zeus, com a recomendação de não abrí-lo. Por curiosidade, Pandora abriu o vaso libertando todos os males que assolam a raça humana e, antes que a ESPERANÇA evolasse, fechou-o. Destarte, o mito de Pandora simboliza a perdição dos homens, a QUEDA e a sua eterna esperança por dias melhores, a esperança é a elevação energética pela vontade que algo de bom ocorra, apesar do mundo estar povoado de maldades como explica O Mito de Pandora. Já que o vaso de maldades foi aberto, devo dizer que Epimeteu significa o que pensa depois (Epi: depois e meteu: pensar, antever). Prometeu, o que pensa antes (Pro: antes, Meteu: pensar, ver), irmão de Epimeteu, primo de Zeus, amigo da raça humana. O homem vivia na Idade do Ouro, quando Pandora apareceu. Prometeu já tinha avisado a seu irmão sobre o perigo de receber presente dos deuses, mas como não pensar depois diante de uma mulher linda e deliciosa. Assim, neste mito temos o homem, o que pensa depois, a sua queda do paraíso, da Idade de Ouro, e a mulher que libera todos os males, restando a ambos a ESPERANÇA uma vez que após a libertação de todos os males os homens passaram a viver na Idade de Ferro onde a violência ou Hýbris predomina sobre a Díke, a justiça. Os mitos são importantes pois desvendam, explicam e consolam a natureza humana, digo até que são verdades humanas irrefutáveis. Na esperança temos o homem a querer ficar rico, lutando contra as doenças e outros males, mas, apenas estamos adiando a morte, já nascemos devendo toda a nossa vida a mãe terra, somos countdown, contagem regressiva, e por sermos countdown, talvez, a maior de todas as esperanças é a busca da eternidade, vira e mexe temos um tresloucado dizendo que isto é possível, duvido. Não se esqueçam que a mulher e a terra estão mais próximas que o homem. Aparentemente, a mulher é o mal, contudo, tomem tento que a terra como a mulher são símbolos da fecundidade, do prazer e da própria destruição, esgotam o homem, roubam lhe as sementes e o suor. A terra dá a vida e como pó voltaremos para o seio dela em contagem regressiva, como a paga do tempo. Vivemos na esperança e quando morremos, de certa forma a esperança se renova por novas vidas que virão. Venho alertando que os axiomas colocam o dedo na natureza humana e, por isso, eles são mais complexos que a maioria dos apostadores ou investidores imaginam e a filosofia, bem como, a mitologia são necessárias neste jogo bruto. Nada pode ser interpretado como a casca de uma laranja jogada ao solo, superficialmente sem mitologia.

...filosofia e mitologia no jogo bruto das ações...

Ava Gardner, um deleite para os olhos,
1922-1990
               Um bom filme. Os amores de Pandora ou Pandora and The Flying Dutchman com Ava Gardner e James Mason, filme de 195l, merece ser visto. Ava Gardner está magnífica. Às deveras, é a mulher estonteante do cinema, nascida nos Estados Unidos em 1922 e morta em 1990. Foi casada com Frank Sinatra de 195l a 1957, em 1989 sofreu um derrame, como consequência ficou paralítica, Frank Sinatra custeou as suas despesas médicas até a sua morte. Como os deuses o cinema criou diversas Pandoras e na nossa série de Pandoras coloco Ava Gardner como a nossa  primeira mulher fatal.

                                                                   Fechando o vaso de maldades de tampa larga. Como sempre nos mitos temos a queda e elevação, o eterno cimento das narrativas, neste caso específico temos o homem espiritualmente como pura esperança, as crianças são por conseguinte, a esperança da esperança. A esperança produz a fé, o pensamento positivo, a força de vontade e o suor. Nada é mais correto que o ditado: a esperança é a última que morre. Quando alguém diz isso, se refere ao homem em sua essência como filho de Pandora e de Epimeteu sempre à espera de dias melhores. O verbo esperar deve ser pensado e repensado, será que deveremos ficar, outrossim, eternamente esperando Godot?  Somos contagem regressiva  desde o momento em que nascemos e mesmo assim somos um vaso cheio de esperanças, temos em nossa história biológica este germe, se não fosse assim os homens passariam a suicidar sistematicamente já que a morte parece tirar sentido de tudo e de todos. A mulher no mito é a terra ávida por vidas e morte. Talvez, a esperança final do homem é a busca da imortalidade, vejo isso como ideia subjacente em tudo que acontece no mundo. A ciência tem potencializado este germe que se recusa a morrer, as cirurgias plásticas que o digam.
.

                                      Z A esperança é a última que morre.

Ava Garner no filme
Casablanca


..a mulher de todos os dons e o que pensa depois..

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Zeus como chuva de ouro engravidante de Dânae

Dânae de Jan Gossaert Mabuse, 1488-1533
Um abuso para os olhos

queda e elevação,  o cimento de qualquer narrativa.

                                                                      Dânae de Mabuse. Os mitos gregos geram beleza para os olhos nas artes pláticas. Jan Gossaert Mabuse, em 1527, pintou Dânae no momento em que ela era fecundada por Zeus todo poderoso, pai dos deuses e dos homens, que tomou a forma de uma chuva de ouro. O quadro acima retratando o mito de Dânae é um óleo sobre madeira. Muitos consideram esta a melhor obra de Mabuse. Às deveras é uma pintura renascentista linda, reparem que ela apara com o seu manto azul a chuva de ouro. Os críticos desta obra dizem que as pernas  de Dânae são, proporcionalmente, mais finas que o seu pescoço, um erro na estrutura do desenho. Só que este tipo de polêmica só faz aumentar o valor da obra.
Dânae de Coralus Duran, 1837-1917
O corpo parece flutuar na Deusa noite

       Dânae. Uma linda princesa filha de Acrísio e Eurídice, reis de Argos. O seu pai ao consultar um oráculo ficou sabendo que o seu neto lhe mataria. A tentar fugir da morte Acrísio encerrou a sua filha Dânae em uma torre de bronze. Zeus, conhecedor da sua beleza deslumbrante, apaixonou-se pela princesa e se transformou em uma chuva de ouro engravidando-a.

       A Queda. Após o nascimento do filho de Dânae ou Perseu os dois foram lançados ao mar em uma pequena embarcação ou cesto para que se afogassem por ordens de Acrísio. Posídon, o rei dos mares, acalmou as ondas até que eles chegassem na ilha de Sérifo. Depois de adulto, Perseu se transformou em um grande herói da mitologia grega, foi ele, exemplificativamente, quem matou a terrível Medusa que petrificava todos aqueles que a olhassem. Posteriormente, Perseu participava de jogos atléticos e acabou matando , culposamente, o seu pai que se encontrava na platéia, isto ao lançar um disco ou um dardo, a profecia, assim, se confirmou.
Medusa, escultura de Gian
Lorenzo Bernini, 1598-1680
Cabeça como ninho de serpentes

                     Simbologia. O mito de Dânae representa Zeus como Deus fertilizador ou como chuva que intumesce a terra com as suas gotas de ouro fertilizando-a e gerando vidas. É o mito do sêmen como chuva de ouro, como algo sagrado. Inúmeros pintores famosos retrataram este mito. Neste mito também há QUEDA de mãe e filho e, depois do sofrimento ELEVAÇÃO, ou seja, Perseu se transforma em herói e sua mãe se casa com um rei. Queda e elevação, o cimento de qualquer narrativa. Abaixo, para o nosso deleite, algumas obras sobre o mito em questão de diversos artistas magníficos em ordem crescente de ano de nascimento:


Dânae, de Antonio Allegri Corregio, 1489-1534
Um anjo ajudando a aparar a chuva de ouro,
muita imaginação.

Dânae de Domenico Tintoretto, 1518-1594

Dânae de Gaspar Bezerra, 1520-1570, porque
 a arte é uma espécie de verdade, a arte é o que é belo e bom,
 o que os olhos querem sempre contemplar 


Dânae de Hendrik Goltzius, 1558-1617,
a luminosidade do corpo impressiona
Dânae de Artemisia Gentileschi, filha de Orazio Gentileschi.
1593-1653. Nesta representação é a criada
 quem recolhe a chuva de ouro.

Dânae de Orazio Gentileschi, 1563-1639,
os braços aparam a chuva de ouro


Dânae de Cornelius Van Poelaemburgh, 1594-1667,
os anjinhos se divertindo na hora da chuva de ouro, magnífico
Dânae de Rembrant, 1606-1669

Dânae de Antonio Bellucci, 1654-1726
Dânae de Giambatistti Tiépolo, 1696-1770
Dânae de François Boucher, 1703-1860





Dânae, Alexandre Jacques Chantron,
1842-1918

                                                                                                                                    



John William Waterhouse, 1849-1917


Dânae de Léon François, 1850-1916


Dânae de Franz Von Stuck, 1863-1928





Dânae de Gustav Klint, 1862-1918, pintor
austríaco da escola simbolista. As obras de Klint são
ousadas. Este gênio merece ser estudado. A minha
favorita juntamente com a de Coralus.


Dânae de Matisse, 1869-1916

Egon Schiele, 1890-1818
...cabeça como ninho de serpentes...


Posídon, irmão de Zeus,
 O Rei dos Mares, como
ator coadjuvante no mito


                                                                                        Z, um abraço a todos.

















sábado, 17 de setembro de 2011

Lilith, a primeira mulher bíblica

John Collier, 1850-1934,
Lilith a primeira mulher bíblica,
os olhos não cansam de apreciar o belo
Lilith, a Deusa da Noite
                                                      A escuridão. No começo havia só escuridão sem um único feixe de luz vagando pelo cosmo, as trevas reinavam no incompreensível do uno, do único. O Um, o sossego da escuridão incomodava e  devorava tudo e Deus vendo que isso não era bom  disse: fiat lux ou faça-se à luz e, logo depois, criou a matéria enfeitando o espaço invisível e vislumbrando na sua sabedoria infinita a beleza do número Dois, o símbolo da divisão, da carência, desceu à Mãe Terra e tomou o barro em suas mãos sagradas como elemento seminal e da argila, como se fosse o pai dos escultores, esculpiu o homem ou Adão e depois a mulher ou Lilith, ambos totalmente iguais, esculturas do mesmo barro. E deus colocou o barro no paraíso e Adão e Lilith viviam felizes, até que Adão procurou confusões com Lilith, um anjo belo, à derramar luxúrias  pelo paraíso. Nas digressões e brincadeiras sexuais, Adão queria se divertir à valer. Não se importava com os desejos de Lilith ou melhor explicando a inglezia, Adão achava em seu machismo que só ele deveria ficar por cima, o que aborrecia a sua esposa que também gostava destas coisas. Para entendermos a essência de Lilith digo que seu nome origina-se do judaico Layil que significa noite; Adão, como palavra, relaciona-se com os judaicos adamá, adomdam que significam, respectivamente, barro vermelho, vermelho e sangue. Já o nome Eva também tem origem no judaico e significa vivente, tanto é que para o grego a tradição sempre traduz para o vocábulo zoé que significa vida. A tradução de tsella para costela teria sido um erro. 

Adão e Eva de Jan Gossaert
 Mabuse, 1478-1533, pintor
renacentista autor do quadro
 Dânae, uma obra prima
imperdível
                Aborrecimento definitivo. Um dia o nosso anjo sensual se aborreceu definitivamente e fugiu para as imediações do Mar Vermelho. Adão ficou triste e se sentiu completamente só, e Deus, preocupado com a sua imagem, mandou três anjos em embaixada reconciliatória para as imediações do Mar Vermelho ou Sanvi, Sansavi e Semangelaf.

As trevas reinavam no incompreensível do uno


                  Experteza Lilithiana ou uma revolucionária no paraíso. Lilith estava irredutível e não quis voltar ao ser arguida pelos três anjos. Alegou como matéria defensiva que tinha contrariado as leis ao andar em outras digressões com outros anjos conhecidos como demônios. Cocem a cabeça levemente, pensem, na verdade Lilith usou a própria lei divina da fidelidade para em seu benefício permanecer em liberdade. Então, a nossa Lilith, é o símbolo da mulher livre e independente, aquela que sabe o que quer. Ou uma revolucionária no paraíso.
A Criação de Adão de Michelangelo,
1475-1564, pintado na Capela Sistina
do Vaticano, uma das obras plástica
 mais linda que os olhos não
 cansam de
ver
Eva, a da costela. E Adão choroso continuou só e novamente o Criador interferiu e, compreendendo Adão, na sua indústria criativa, sacou de uma costela deste Eva, moldada na ideologia da submissão. Assunto resolvido.

...os olhos não cansam de ver...
                                       
                                                        Das provas. Temos que matar a cobra e mosrtrar o pau, às antigas, os ensinamentos indiciários que houve uma outra mulher bíblica está no primeiro capítulo do Gênesis, versículo 27 que esclarece:
A Expulsão do Paraíso de Michelangelo

                                                             
                                                                Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher
                     
                                                               Já no segundo capítulo gênesis, versículo 18, portanto, depois de Deus ter criado a ambos, o criador se manifesta:

                                                               O Senhor Deus disse: Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.

                                                                Como isso é possível, se Adão e Lilith já haviam sido criados nos primeiro capítulo? Acontece que os escritos foram alterados, tudo para apagar Lilith da história criacionista. dos sacerdotes formais. Só que eles não perceberam o detalhe que cria um contradictio in terminis.
                                                               
                                                                                                                                                          
                                                                  Só no versículo 22 do capítulo segundo aparece Eva, como sub produto da costela de Adão:

                                                                   E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem
                                                                 

                                                                   Por qual motivo Adão faria a seguinte declaração já no versículo 23 do segundo capítulo:

                                                                   Disse então o homem: Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada. As traduções muitas vezes apresentam as seguintes variações, esta sim ou agora sim, contudo ambas escondem a existência de uma outra mulher. A emenda do soneto não ficou boa, deixou indícios.
                                                              
                                                                     Concílio de Trento. No ano de 325 depois de Cristo realizou-se o Concílio deTrento evento que decidiria quais os livros que seriam adotados pela Igreja. Segundo alguns a escolha foi na forma de colocar em cima de uma mesa todos os livros e os que não caíssem dela, seriam os verdadeiros. Historiadores afirmam que neste concílio além de ser escolhida a doutrina oficial, o papel da mulher submissa foi reforçado por novas versões nos textos escolhidos.
Detalhe do quadro A Criação de Adão
 de Michelangelo, o anjo Miguel.
Os olho admiram a perfeição das mãos
A maça como símbolo da árvore do conhecimento ou o conhecimento do bem e do mal, bem didatizada, tem origem mais tardia.

                                                                                          Sinfonia de uma calúnia, difamação e injúria. Depois Lilith se transformou na serpente que entregou à Eva a maçã que gerou a expulsão do paraíso. Segundo outra versão, este fato pode ser verdadeiro, só que Lilith não se conformava com a separação, que Adão não a entendesse e, por isso, como forma de vingança entregou a maçã para a concorrente. Em outras narrativas Lilith aparece como uma das cinco amantes do demônio. Também pesam sobre Eva acusações, algumas correntes teológicas, dizem que Eva foi seduzida por Lúcifer e que deste relacionamento nasceu Caim. Uma versão aceitável seria que Lilith tivesse apaixonada por Samael, anjo que significa a ira ou veneno de Deus, teria dado a ela o conhecimento do prazer e por isso ela abandonou Adão o que foi de encontro as leis de Deus que não permitia relações sexuais entre suas criaturas. Outras versões dizem que Deus castrou o anjo Samael como forma de punição eterna. E a maçã, o conhecimento, o prazer sexual, foi apenas, uma vingança de Lilith contra Eva. Pelo raciocínio oficial Eva teria sido a primeira pessoa a experimentar o prazer.

                                                                    Epilogando. Lilth é muito conhecida nos estudos ocultos, se transformou na rainda das bruxas, ora temida, ora admirada, cultuada por muitos que entendem a sua natureza. A Pomba Gira dos O homem contemporâneo está mais preparado para entender Lilith do que os de alguns séculos atrás. E Lilith já foi entendida e cultuada na antiguidade. Outros vem no mito a mudança do matriarcado para o patriarcado e os textos religiosos foram mudando de acordo com as conveniências do poder e do dsinheiro.  A deusa Isthar da babilônia pode ser uma antecessora deste anjo rebelde. Todos os mitos criacionistra tem algo em comum, a queda com promessas ou esperanças de elevação. Reparem que o mito grego criacionista de Pandora e Epimeteu é bem parecido com o católico e com milhares de outros. Sempre a queda, o pecado, a proibiçãso e as promessas de elevação. Não é plausível, hoje, as religiões discriminarem tanto a mulher e, elas como se tolas fossem, serem as maiores defensoras desta descriminação absurda e infantil. Somos iguais, o barro é o mesmo e essa lei está escancarada, é uma lei natural. O texto é uma homenagem a nossa Lilith.

...as verdades necessitam de atualização...


Isthar Deusa babilônica da fertilidade
e da lua

                                                                          Zé Perrengue.
Fiat Lux

terça-feira, 13 de setembro de 2011

As Moiras, a nossa vida eternamente por um fio

Cloto, Láquesis e Átrópos, As Moiras, ou a nossa vida eternamente
por um fio, quadro de John Melhuish Strudwick, 1849-1937


                                                                 Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. Fernando Pessoa 1888-1935, uma tragada do blog na Tabacaria.

                                                                 A nossa vida por um fio. Uma verdade pungente, que dói, é a morte, a que, sem descanso, ronda e rondará a miséria de nossos corpos cheios de vermes. Diante de tanta verdade ou fragilidade é oportuno lembrarmos  que a nossa vida está sempre, moiramente, por um fio, ou, simplemente, tudo por um fio. Os gregos na sua saberdoria seminal, não deixaram por menos sobre a nossa vida por um fio, e, em suas narrativas criaram a Moira ou Aîsa, deusa encontradiça na obra homérica que representa o nosso destino ou fado. Mais tarde a Moira se transformou nas Moiras, a saber,  em três velhas respeitáveis ou, ainda, nas graves fiandeiras Cloto, Láquesis e Átropos. A palavra Moira origina-se do verbo grego meresthai o qual significa obter por sorte, partilha e, o substantivo Moira pode perfeitamente ser traduzido por destino, quinhão, sorte de cada um nessa vida ou a parte de cada um por sorteio. As Moiras eram filhas de Nix, a noite segundo Hesíodo, e em outra versão filhas de Zeus e  Têmis. Na antiguidade eram representadas por velhas Senhoras lúgubres, com enormes dentes e unhas grandes, mais modernamente podem aparecer em forma de lindas donzelas cuidando dos nossos destinos.
Nyx, a noite, filha de Caos,
 mãe das Moiras, quadro de
 William Adolphe Bouguereau
a nossa vida por um fio.
                   Símbolo impagável. A simbologia do mito das Moiras é a necessidade de lembrar ao orgulho do homem que a sua vida está sempre por um fio, que seu fio pode ser cortado a qualquer momento pela deusa Átropós. Daí a beleza do mito, a beleza da lembrança da humildade diante da morte que é sorteada a todo momento, um trabalho levado a cabo em linha de produção. Por isso, não brinque com a sorte, não abuse da sorte, não dance com as Moiras a dança macabra da morte, onde a sua vida está no embornal de apostas como coisa sem a menor importância. Homens prudentes são homens temerosos da morte. A maior bobagem do homem comum é não querer conversar sobre as Moiras ou sobre a morte, alías ter uma reprodução do quadro acima seria interessante. A filosofia das Moiras, então,  tem o seguinte princípio sagrado: a sua vida esta por um fio. Uma cópia do quadro de Nyx, a noite do véu negro, de William Adolphe Bouguereau seria um belo adorno caseiro também.

                     Morte esquecida como softwere do corpo. Todo dia é a mesma coisa, acordamos como imortais, esquecidos da morte, olvidamos que a nossa vida está sempre por um fio. A natureza é sábia, nos engana, faz nos agir como se não fóssemos morrer, dá um curto circuito na lembrança da humildade da morte e tocamos as nossas vidas com força, muitas vezes com ferro e fogo. A lembrança incessante da morte levaria ao caos  do hardwere, do corpo, e, da mente, e, a vida ficaria  insuportável. Por isso, precisamos esquecer urgentemente a morte. Fomos configurados para a vida assim, é o nosso softwere dentro do hardwere-corpo, temos que viver a todo vapor, lutar por tudo e contra todos. É a lei da vida que não quer e não pode ser humilde, é a luta incessante dos opostos em que o homem conta com o esquecimento constante. É difícil sentar na cadeira da humildade, o homem é de barro, mas de argila viva, que pula, chora e rola.

                                                                   As Moiras são parecidas na mitologia grega com as Queres, só que estas são mais sanguinárias, demoníacas e violentas. As Moiras foram transferidas para Roma na forma das Parcas ou Nona (Cloto), Décima (Láquesis) e Morta (Átropos)

                                                                   Quando estudamos as Moiras estamos dando uma passada na  Escatologia matéria que estuda o destino definitivo do homem, destarte, estudando as Moiras estamos na escatologia como destino inexorável do homem.

                                                                                o nosso software dentro do hardware-corpo
As Moiras cuidando
do nosso fio da vida
                As três fiandeiras graves, as três irmãs fatídicas são em detalhes:
.

                Cloto. Origina-se do verbo Klothéin que significa  ou  melhor Cloto fia a nossa vida, o nosso destino, esta fiandeira pode fiar um longo fio dando-nos vida longa, bem como, um pequeno fio, ninguém sabe, ninguém pode prever o futuro; é a deusa dos nascimentos e partos. Cloth em inglês é roupa e tem origem nesta deusa.

                                                    
                                                                       Láquesis. Se a nossa vida é um tênue fio fiado por Cloto, alguém tem que sortear os fios que serão cortados e esta incumbência cabe a Láquesis, nome que vem do verbo grego Lankhanéin ou sortear. Assim há um sorteio macabro e horripilante de vidas para serem ceifadas, assim, a nossa vida está ligada a sorte, não podemos fazer nada quando a nossa sorte é ruim. As Moiras são netas do deus seminal Kaos. De Kaos veio tudo, segundo Hesíodo em sua obra Teogonia. Caríssimos, é necessário conhecermos a família das Moiras, já dissemos que elas são filhas de Nix, irmã de Érebo e depois sua esposa. Nix é também irmã de Eros, o amor primitivo, Tártaro, as trevas e Gaia, a Mãe Terra. Foi Nix quem deu a sua irmã Gaia o instrumento que ela usou para castrar o seu marido Urano. Os elementos Moiras, noite, morte, escuridão, trevas, amor e terra germinando estão ligados uns aos outros e a lógica é plausível.

                                                                       Henry Ford e a linha de produção da morte. As três irmãs simbolizam o verdadeiro e único trabalho em equipe do além, em linha de produção da morte. Essas Senhoras feiosas que parecem sorrir, uma fia a vida tão só, a outra faz o sorteio e a terceira, o corte do fio, trabalho de tamanha responsabilidade que cabe a Átropos. Estas senhoras estão lidando com assunto grave, não pode haver erros, a responsabilidade é grande, daí a especialização do trabalho. O trabalho tem de ser em equipe, especializado, em linha de produção, afinal, se trata da vida humana e a incumbência é grande, não pode haver engano ou distração, por conseguinte, são as graves fiandeiras.
                                      

                                                                        Átropos ou a que não volta atrás.   Átropos vem do verbo trepéin que quer dizer voltar e esta palavra acrescida do prefixo grego A, que significa não, temos na junção, a que não volta atrás. Em resumo, uma fia, a outra sorteia e a terceira corta o fio, sem nenhuma possibilidade de  volta, de mudança de idéia. Caríssimos, cocem a cabeça levemente, pensem, a que não volta atrás é simbólico, metafórico e metafísico, a saber, significa que a nossa vida é única, não há volta, não há devolução de vida. Vida não é objeto, não tem balcão, reclamação ou Procon do além. Colocamos o primeiro princípio das Moiras ou a sua vida está por um fio, o segundo princípio das graves Senhoras é que contra a morte não há remédio, ou princípio da irreversibilidade do que foi cortado.

                                                     
                                                                          Roda da Fortuna. A roda é o instrumento onde se tecem os fios e as Moiras trabalham, em equipe, com a Roda da Fortuna, o seu instrumento de trabalho, como se estivessem em uma linha de produção de Henry Ford. Na roda,  os nossos fios rodam pela roda, uma hora o nosso fio, está por cima e em outra hora o fio de nossa vida está por baixo. Isto explica as fases da vida, a boa e a má fase com a vida maios ou menos se intrometendo em cada uma delas ou o que está mais ou menos pode piorar ou melhorar.
Henry Ford 1863-1947, criador
 da moderna linha de produção,
posterior a das fiandeiras graves

                                                                           Reflexão final. Conhecendo As Moiras, meditamos sobre o fio de nossa vida que pode estar por um fio, pode ser longo ou estar na iminência de ser cortado por Átropos, assim, aqueles que levam tudo a ferro e fogo, como se fossem viver eternamente, podem estar em erro, em erro de humildade, em erro sobre a fragilidade do fio da vida. A metáfora do fio, veio a propósito, certamente, um fio arrebenta a qualquer momento como a fragilidade da vida pode se arrebentar na intuição do instante. O certo é levar e não levar a vida tão a sério, o métron, a boa medida, cabe a cada um, às deveras, cada um é cada um.



    
Representação da Roda da Fortuna na Idade Média


                                                             Zé Perrengue, um longo fio de vida a todos tecido por Cloto, a Moira fiante.













































quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fernando Pessoa, um tuga com certeza, em homenagem à geração à rasca




Fernando Pessoa nasceu
em13-6-1888 em Lisboa
e morreu na mesma cidade
em 30-11-1935. Tenho apertado
 ao peito hipotético mais humanidades
 que Cristo.


...o Esteves sem metafísica...
                                                                     
                                                                 I know not what tomorrou will bring ou Eu não sei o que o amanhã reserva, últimas palavras desta Pessoa antes de falecer em 1935.

                                                           Geração à rasca. A expressão geração à rasca significa uma geração em dificuldades, em apuros ou melhor dizendo uma geração sem nenhum futuro. Ver-se à rasca é o mesmo que achar-se em dificuldades. O verbo rascar tem como sinônimos lascar, arranhar, gritar, arrastar e outros significados.

Bandeira de Portugal. Falhei em tudo.
                                                          

                                                     Portugal, um balde despejado, vive a mãe das crises, uma crise maior em que o país afunda em uma dúvida, em uma dívida mirabolante em Euros, convive com desemprego em forma de pesadelo, acima de10% e, baixo, ou nenhum crescimento do produto interno bruto. Morro a baixo foi parar na pocilga, no chiqueiro, agora, faz parte dos Pigs ( Porcos em inglês e as primeiras letras, com exceção do último, de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha, todos países em dificuldades econômicas). Em razão disso explodiu na data de 12 março de 2011 um movimento denominado Geràção À Rasca em que jovens, cheios de metafísica, principalmente, estudantes, protestaram contra os apuros do país. Estes gajos tomaram as ruas sem medo,  abrindo os peitos hipotéticos, sonhando mais que Napoleão fez e pararam o país. O Fogaréu atento ao mundo, em homenagem à esta geração, composta de verdadeiros escravos cardíacos das estrelas, transcreve aqui o poema Tabacaria de Fernando Pessoa, 1888-1935, um tuga com certeza da língua portuguesa, em homenagem à esta geração. O poema, um dos mais belos da nossa língua, é apenas um alento, uma singela mercê, à esta geração perplexa que teve a inteligência de se organizar virtualmente em redes sociais. Os poderosos tremeram, a imprensa chapa branca procurou defeitos, espiolhou baldas nos jovens, não reconhecem que Portugal é um balde despejado, sugado pela corrupção, assombrado por dívidas e juros carnívoros e, como desgraça pouca é bobagem, está engessado por um modelo econômico que tem a forma de uma caravela quinhentista. Estes jovens tugas, pesadelos do euro, como por um instinto divino, sentem que não são nada, que nunca serão nada e que não podem querer ser nada diante da configuração do tudo que aturde. Toma lá, caríssimos, Tabacaria, como biotônico Fontoura para o espírito:
Nãosounada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Tabacaria
Nãosounada.                                                                                              
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo das
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.                     
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,                                    
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Manifestação histórica em 12-3-2011.
Estou hoje vencido como se soubesse a
verdade
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.                         
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Prédio onde nasceu Fernando Pessoa,
em Lisboa, Bairro do Chiado.
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma sem
Porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente                        
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates coma mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Manifestação da Geração À Rasca
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
   Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,                            
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Bandeira de Portugal.
Como um cão tolerado pela gerência

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti,    e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,               Com o destino a conduzir a carroça de tudo...
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como
Tabuletas
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Caravela, modelo econômico português. Morrerá
depois o planeta girante em que tudo isto se deu
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

        Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.                             
Também como um cão tolerado pela gerência

                                                                                          Zé Perrengue, um cão tolerado pela gerência, solidário com à geração à rasca